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A minha história com a educação socioambiental começou de fato em 2008, quando fui convidada a mediar um grupo de policiais militares capixabas no Mosteiro Zen Budista Morro da Vargem, em Ibiraçu/ES. Esse trabalho foi realizado em parceria com o IEMA e o ESESP. A identificação foi imediata, eu gostei muito de trabalhar no Mosteiro e o Mosteiro gostou muito do meu trabalho. Teve início, então, uma parceria que durou sete anos. 

Enveredei pela arte-saúde ainda na graduação. Quando ingressei no curso de artes plásticas da Universidade Federal do Espírito Santo, em 1995, fui seduzida pelo mosaico. Tive a honra de ter como mentora a mosaicista Freda Cavalcanti Jardim, considerada a “mãe do mosaico brasileiro”. Aprendi muito com Freda. O mosaico, também chamado “arte eterna”, tem um quê de magia, nela os fragmentos de variados materiais devem ser reunidos num todo harmonioso, resultando numa produção instigante. Era como se extraíssemos a mais linda melodia de instrumentos desafinados. Eu não imaginava que, em alguns anos, estaria trabalhando na clínica da psicose. No campo do mosaico desenvolvi um trabalho vinculado ao vitral e à joalheria que denominei “joias mosaico”.

Em 1999, tomei contato com o programa de extensão Cada Doido com Sua Mania, do qual participei entre os anos de 1999 e 2007. Nesse Programa, que em 2018 completou 32 anos de existência, compreendi que a arte é um campo que atravessa toda a vida e que eu poderia ampliar, como artista, o meu campo de atuação profissional. No momento que ingressei pela primeira vez em uma oficina terapêutica, soube que era isso o que gostaria de fazer na minha vida.
 Foi assim, trabalhando com saúde mental, me peguei partícipe da construção de outras formas musivas, pois o campo da psicose é marcado pela fragmentação do sujeito e uma das particularidades da arte é a sua potencia agregadora. Estagiei na Oficina Terapêutica de Pintura do Centro de Atenção Psicossocial Ilha de Santa Maria, o primeiro CAPS do Estado do Espírito Santo. Eu voltaria ao CAPS em 2003 como coordenadora dessa mesma oficina. Sempre valorizei a produção pictórica e a fala dos pacientes. Foi No Caps-Ilha que organizei a primeira exposição individual dos pacientes na Galeria de Artes Freda Jardim, no IPAJM. Os trabalhos foram expostos da mesma maneira que eram expostas as pinturas de outros artistas, sem rotulá-los. 

Esse percurso transdisciplinar levou-me, depois de formada, a participar da estruturação de variados serviços de saúde mental no Espírito Santo, além do CAPS- Ilha participei da estruturação das oficinas terapêuticas do primeiro Ambulatório de Saúde Mental para crianças e adolescentes no Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (HUCAM), em 2003. Posteriormente, o Programa CDSM saiu do HUCAM e se instalou no Campus Goiabeiras para lá estruturar o Centro de Atenção Continuada à Infância e Adolescência (CACIA). Trabalhando no CACIA tive a oportunidade de tomar contato com outros públicos nas oficinas, especialmente a partir de um convênio estabelecido com o Hospital infantil. Acolhemos nas oficinas terapêuticas crianças e adolescentes com distúrbios alimentares e outras que haviam tentado o suicídio. Confesso que esse foi um dos trabalhos mais desafiadores que participei, visto que o suicídio é um tabu social e tratar o mesmo exigia além de muito estudo, um mergulho na análise pessoal.

Em 2000, tive a graça de estagiar no Museu de Imagens do Inconsciente[1], foi enquanto fazia a pós-graduação em Arteterapia na Saúde e na Educação na Faculdade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Essa foi uma oportunidade para me aprofundar na obra da Dra. Nise da Silveira, essa pesquisa se complementou com a próxima pós-graduação, essa em Psicologia Analítica Junguena, pela Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo (FACIS). Especializei-me, também, em Psicossomática, pela mesma faculdade, em 2006. Foram tempos de entrega à pesquisa no campo da saúde mental.

O ano de 2007 trouxe mudanças, me despedi dos amigos do programa CDSM para me dedicar ao mestrado de letras da UFES. Minha formação se abria para os campos da linguagem literária, mais especificamente a linguagem poética. 
Em 2009 defendi a dissertação intitulada Vozes femininas: a polifonia arquetípica na obra de Florbela Espanca. O desejo de pesquisar o universo arquetípico feminino instigou novas buscas e, em 2010 ingressei no doutorado de Letras da UFES, agora pesquisando a relação comparatista entre a obra de Florbela Espanca e Rubén Darío, poeta nicaraguense considerado “pai das letras castelhanas” e “Cisne da América”. 
Em 2014 defendi a tese intitulada A Flor e o Cisne: diálogos poéticos entre Florbela Espanca e Rubén Darío. As pesquisas de doutorado demandaram um mergulho na literatura Iberoamericana e me deram a oportunidade de viajar para a Nicarágua, Portugal e Espanha, mapeando textos manuscritos, cartas, informações que resultaram num trabalho que teve a inserção de quarenta cartas inéditas. Um percurso de conhecimento e de autoconhecimento que abarca, também, uma produção como escritora e pesquisadora, história rica e estimulante que pode ser acompanhada no site letra e fel,  (www.letraefel.com). 

Volto ao ano de 2008, quando recebi o convite para realizar a vivência com policiais no Mosteiro Zen Budista Morro da Vargem. Nessa época já integrara à minha práxis as expressões plásticas e literárias. 
O Mosteiro Zen Budista é um Polo de educação ambiental reconhecido pela UNESCO como um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. No Mosteiro desenvolvi projetos e programas socioambientais e de qualidade de vida para diferentes grupos, especialmente dentro dos Programas[2] ZENZINHO, COMPAZ: a ética policial e a vivência socioambiental e ZEN MANAGEMENT. Essas experiências me mostraram que o tratamento da saúde mental pressupõe mais que a ausência de doenças, antes é um conceito que se relaciona com qualidade de vida emocional e cognitiva, e que o tratamento deve ir além dos consultórios.  A depressão, a ansiedade, a angústia e os transtornos psicossomáticos podem se tornar um dizer direcionados à saúde.

Em 2014 recebi o convite do Governo do Estado do ES para desenvolver um plano de atividades lúdicas terapêuticas para dezesseis comunidades terapêuticas (CTs). Ingressei na equipe do Projeto Terapêutico e Social do Centro de Acolhimento para Pessoas com Dependência Química, mais conhecido como “Rede Abraço”. Por meio desse trabalho pude conhecer os direcionamentos para o tratamento dados pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Droga (SENAD) e a trabalhar com esse novo público, pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Passei a desenvolver um programa de atividades lúdica terapêuticas voltado para as Comunidades terapêuticas (CTs) credenciadas pelo Governo. Esse trabalho abarcou o treinamento das equipes das CTs, a estruturação e orientação de ações e projetos culturais, artísticos e educacionais para os acolhidos e a realização de variadas oficinas terapêuticas e de geração de renda. 
Em janeiro de 2015 já colhíamos alguns frutos desses trabalhos, especialmente como as “RODAS DE LEITURA REFLEXIVA” e com as bibliotecas estruturadas em algumas CTs. 
Esse percurso, nada linear, continuou e em 2016 ingressei na UFES como professora de literatura, ministrando, entre outras matérias, LITERATURA DO ESPÍRITO SANTO E LITERATURA DE AUTORIA FEMININA EM LÍNGUA PORTUGUESA (PORTUGAL- BRASIL E ANGOLA).

 Hoje dedico-me a projetos de educação ambiental na Reserva Particular do Patrimônio Natural Reluz (RPPN Reluz), de minha propriedade, situada em Marechal Floriano e presto atendimentos no Espaço Terapêutico Reluz, localizado em Vitória, onde também desenvolvo cursos, oficinas terapêuticas e grupos de estudos. 

Na RPPN Reluz realizamos retiros e vivências, amparados por uma prática pedagógica que tem como aporte a teoria da mudança social, como propôs Paulo Freire mediamos ações que elevam o nível de percepção crítica dos indivíduos, buscando com que esses se reconheçam como essenciais em toda e qualquer ação que promova uma melhoria na sua vida e contribua para a melhoria da sociedade. Partimos do pressuposto de que é possível diminuirmos os impactos ambientais causados pelo mau uso dos recursos naturais e construirmos espaços de referência que mantenham uma relação equilibrada com o meio ambiente. 
As ações de educação ambiental que realizamos parte da sensibilização das pessoas para o meio ambiente a partir do reconhecimento de si como parte do mesmo.  Reconhecer-se como elemento importante no processo de mudança social é essencial para professores, alunos e sociedade como um todo, pois, torna possível ao indivíduo cumprir um papel dinamizador e integrador das ações socioambientais a partir da participação efetiva nas pautas de interesse comum.

"O NOSSO DESAFIO É EDUCAR PARA A SUSTENTABILIDADE" 
Renata Bomfim

Oficina terapêutica no programa Compaz

 Oficina terapêutica no programa Compaz
 Oficina terapêutica no programa Compaz
 Oficina terapêutica no programa Compaz
 Exposição dos pacientes do CAPS-Ilha
 Oficinas Terapêuticas para policias militares ambientais
Acolhido fraquentando biblioteca criada em CTs




[1] Dessa experiência nasceu o GRUPO DE ESTUDOS NISE DA SILVEIRA, um interprojeto do CDSM que funcionava na minha casa acolhendo alunos de psicologia, artes e outros cursos da UFES, entre dezenas de felinos, para a leitura e discursão da obra da Dr.ª Nise e de Jung.
[2] O Zenzinho atende crianças da rede pública capixaba, sensibilizando os jovens para a importância das boas práticas para uma vida sustentável. No Zen Management trabalhava com gestores de empresas públicas e privadas e profissionais liberais e o COMPAZ, sob a forma de educação continuada, trabalhei com policiais militares e militares ambientais do Estado do Espírito Santo.



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